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funerais:

Há um trecho na carta que enderecei-lhe que não atentou-se. Há um olhar que caiu que não leu. Há uma discussão que não travamos. Há uma paisagem que não foi desfrutada. E no mato virgem eu me embrenhei, por medo do fogaréu. Eu vesti o vilão, por medo do conto ter um término fúnebre. Eu coloquei um…

(Source: exilios)

transfugir:

          Só porque carrego memórias tortas, atitudes torpes, covardia insistente, sorriso entre dentes, dúvidas cruéis. Só porque os cabelos se espalham, os olhos não claros, meu porte pequeno, minha postura descrente, o olhar descontente e uma dependência algoz. Só porque não escrevo em versos, repito clichês, reprimo loucuras e temo abandono. E ainda mais: só porque eu quis. A reciprocidade é lei rara; as expectativas são noites de insônia.

(Source: saidajanela)

p-u-r-a:

O que está havendo comigo? Talvez foram as três taças de vinho. E talvez… talvez eu esteja ficando muito fraca para a bebida. Aliás, eu já fui mais forte em muitos outros sentidos. Estes que deixei de ser há algum tempo já. Dias, meses quem sabe. Não gosto de contar o tempo, e muito menos parar para pensar no quanto que ele corre, no quanto que eu mudo. Estou envelhecendo, eu e meu velho copo de vinho. Nós, a sós. Sem interrupção. A verdade é, quem viria bater em minha porta? Expulsei a todos. Eu escolhi assim, tira-los da minha vida. Eu estava cansada de conviver com aquelas tipicas mudanças de humor dos seres humanos. Já não bastam as minhas? Uma hora feliz, na outra é tristeza, e depois o álcool invade. Sim, é isso mesmo. O álcool já faz parte de mim, se tornou um estado meu. E acredite, eu sou muito mais engraçada quando estou embriagada. Tudo em mim, é exagerado. Tudo em mim, vem em êxtase.

Olhe só, a que ponto cheguei. Não enxergo um palmo a frente de meus olhos. E tudo parece mais divertido assim. Sorrio sem motivo, gargalho sem ter porquê… Estou trocando meus pés. Sem contar que estou a dialogar comigo mesma! Como posso chamar isto, embriaguez ou solidão mesmo? Tanto faz… Pouco importa. Todos já se foram, ninguém mais irá voltar.

Opa… Perdoem-me, pois estou embriagada. Mas só, claro que não estou! O álcool agora é meu companheiro. “Por favor garçom, mais uma taça de vinho”. Olhe só, até por esse tenho que pagar a companhia. Isso não me soa novo, muito menos me assusta. Há tempos venho comprando acompanhantes, amigos que não são tão amigos assim. E enfim, compro pessoas. Com um pouco de dinheiro no bolso, estas suportam viver junto a mim. No começo é doloroso, admito que alguns machucados sofri. Mas no fim… me tornei seca. Apenas não quero ficar sozinha. Podem estar ao meu lado, apenas cumprindo o serviço prestado. Mas não, não me deixem. Por favor, sozinha não me deixem. Eu tenho medo do escuro, dos fantasmas que me assombram ao cair da noite. 

Não, por favor. Eu pago. Uma companhia até pegar no sono. Até que o medo se vá. Alguém se habilita? Não… tudo bem. Há dezenas de caixas de remédios tarja preta que guardo em cima da geladeira. Apenas esperando por mim. Essa é a companhia de hoje a noite. Sim, eu sei. Não se deve misturar álcool a esses remédios. Meu médico já me alertou, me encheu de avisos. Não, ele não se importa. Apenas está cumprindo seu ofício. Ou talvez ele tenha medo que algo venha a acontecer. E um familiar… amigo meu, coloque um processo em suas costas. Espere. Me deixe gargalhar um pouco. Não há ninguém… Ninguém que se importe, que vá fazer algo por mim!

Amanhã mesmo irei em seu consultório. Em uma das mãos a garrafa de vinho e na outra a caixa cheia desses remédios que me causam arrepios. Largarei a feliz notícia. Meu caro, não há ninguém… ninguém. NINGUÉM! Com certeza ele não entenderá, eu estarei tropeçando nas palavras, e nada falarei com sentido. Apenas deixarei claro isto. Não há ninguém que se importe. Talvez o peso de suas costas diminua. E ele, nem se importe mais em como irei ingerir minhas drogas. Pois, já ouviu falar em mortos indigentes? Estes, não possuem conhecidos, família, amigos. E então, morrem. Morrem de morte. Não, não importa se foi uma facada atingindo o coração, uma bala na cabeça ou até uma parada respiratória. Morreram. Fizeram falta? Não… Então, pouco importa a causa disso.

Talvez eu me torne um destes corpos que examinam nas faculdades. Digno. Para quem passou a vida sozinha. Terminar em uma sala cheia de jovens estudantes, examinando meu corpo. Será que eles se perguntarão, como foi meu passado? Ou como arranjei aquela cicatriz no ombro direito? Ah, só pode ser o álcool, me causando alucinações. Ninguém, irá querer saber sobre a vida de uma indigente!

Agora, vou tomar meus remédios e dormir. Essa noite escura já está me causando arrepios. Se amanhã eu vier a acordar, e lembrar de todos os meus pensamentos de hoje, visito meu médico. Mas claro, depois que a ressaca passar…

FlordeCaramujo